sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Teogonia XX

Das pretensões que a vida engengra

Nunca se soube de pretensões maiores do que a chuva, ou um inseto qualquer. Amauta só foi conhecer o que era uma pretensão quando ela passou.

Aquilo só seria senão o amanhecer de um mundo novo. E nem se importou quando fora desdenhado pelas carícias que brotam do chão por onde ela passou. É nisso que se detém. Nisso e nada mais.

A ausência de comédia nas tragédias da vida e do mundo não lhe causava mais assombro. Tudo passava a ser tão... tão desimportante.

E lágrimas e submissões e homens autômatos não assombravam mais do que uma folha desbotada ou um grão qualquer que compõe uma rocha qualquer. Todo o mais teria apenas o mesmo ar austero e escuro como chumbo, sem a pretensão do morno dos seus passos.

Feito um largo adágio de um novo mundo quando ela passou. O mundo era isso, apenas isso e não outra coisa mais.

Amauta tinha Certeza que sem aqueles pés as cores abandonariam as flores, que o resto do mundo seria preto, branco e cinza, sem muita graça. Tudo por causa da moça que passa.

Essa pretensão tamanha, filha do acaso e da audácia, foi simplesmente resistir a tudo. Tudo menos à moça que passa.

E perceber a condição sem igual de se estar apaixonado deveras, ao ponto de querer que até mesmo o chão pertença àquilo que cabe no “seu e no meu”.

Porque Amauta sabe que foi ali que se aniquilou todo o grotesco do mundo. Foi quando ela passou.

Só que foi preciso ela passar para Amauta ver e sentir que o mundo era absurdamente melhor quando ela ainda estava por lá.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Lendas pärtianas III

Sanctus

Do encontro de poetinha com a lua do seu céu.

Lua brilhava. Fazia do céu de novembro, escancaradamente quente, que era só dele apenas, um manto de retalhos costurado com uma linha tênue de esperança e ansiedade.

Ainda acho que essa ansiedade não deveria ter a pretensão de existir... Então, mesmo assim, poetinha tomou a infinita decisão de ser todos, e elegeu para si mesmo aquele céu como bandeira de seu estado de espírito.

Quem estava no jardim das Açucenas disse que a própria beijou suas mãos e olhou pra ele.

Naquela hora poetinha estava cheio de erva-de-passarinho na sua garganta. Porque ele não pode falar, ficou vermelho, encabulado. Talvez pudesse assoviar, mas não tentou. Até seu olhar era gorjeio!

A vontade era apenas dizer a mesma coisa para a lua que beijou sua mão: “eu também te amo”.

Não precisou.

Seus olhos já o fizeram. Por que agora então ele viveu no mundo da lua.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Liturgias II

Primeiro Sermão

Hoje poetinha possui a origem de todos os poemas.

E não lhes direi aqui para buscar num Além duvidoso. Não, não é justo, é desumano.

Ainda assim, hoje poetinha possui a origem de todos os poemas

Porque não há tamanha tirania do que um divino que escapa até mesmo os sonhos mais doces e profundos. E de que valeria o céu inteiro se os sonhos forem sepultados?

A troco de quais misérias triviais os sonhos foram sepultados? E que se ergam seus muros infindáveis e infames, a dividir o mundo. Não adianta mesmo, não dividirão seus sonhos: poetinha possui, hoje a origem de todos os poemas.

Que possuam tudo, milhares de sóis não lhes servirão a destroçar os sonhos.

Hoje poetinha possui a origem de todos os poemas, porque o pão que é corpo é feito de farinha de estrelas, aquelas mesmas que semeiam estradas inteiras, e caminhos, e sonhos e delas brotam os sumos do céu a toda manhã... origem de todos os poemas.

Porque os muros e sóis não contém o outro lado. Do lado de lá, onde o sonho habita sorrindo, como uma criança segurando uma margarida, ou um balão que é um gesto de carinho.

Hoje poetinha possui a origem de todos os poemas, exatamente porque tem a Lua como par.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Lendas Pärtianas II

Magnificat

Hoje só um homem nasceu no mundo.
E foi o único a ver o amanhecer,
sabendo que já nascera com eras de idade.

Eras de um passado turvo e desconhecido,
das glórias e guerras de antanho
que trouxeram a modernidade,
um progresso ensimesmado
na fúria, na usura.

Hoje só um homem olhou ao redor de si
e alguma palavra lhe escapou à boca
sem que a soubesse pronunciar.

E também hoje, esse mesmo homem
que nasceu solitário, e mudo,
entre tantos iguais,
sofre.

Porque ele nasceu hoje,
já grisalho e cansado,
do mundo que deixou de ter um chão
que deixou de ter um céu.

Agora o homem nascia velho,
preso nos grilhões de ferro
e vidro e fumaça e pó.

O homem nasce hoje, só ele,
num mundo que não é mais seu.

Hoje só um homem nasceu,
sabendo que nem vive mais
e nasce - e morre.
E hoje foi só um homem que morreu,
quando acordou e se encarou
no espelho

Fiz de conta que esse homem
também não era eu.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Lendas Pärtianas

De profundis, ou de onde veio o amor



Aconteceu na margem perto da foz de um rio.

O carreio do sol estava até bem perto do ocaso.

Um andante festivo regido por algum um maestro armando prazeres, de algum ponto mais bonito pro alto do universo. Foi o que se ouviu naquele instante, pra bem além daquele horizonte plano.

E poetinha, da ponte já tomada e domada de descuidado, pensou que até mesmo um sol precisaria daquelas mãos feitas pela aurora.

Viu que naquilo tudo todas as cores da sinfonia da tarde. Era dourado, e prateado, e cor de doce de leite, tinha cor de bronze até que a margem esquerda do rio foi ficando escura, e brilhava cada vez mais. Mais que o céu.

Só não brilhava mais que o olhar que se apoiava delicada e cuidadosamente na palma daquelas mãos.

Ah, poetinha então, como ente que penteia palavras, tirou do seu bolso um pente pequeno, com três dentes apenas, e danou a pentear.

Porque poetinha adorava as mãos e a dona das mãos. E penteou o adoro, e penteou e penteou, até sair a dor.

Poetinha achou por bem deixar o pente ali, no lugar da dor.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Teogonia XIX

Prelúdio do amanhecer*

Não, não era Orfeu tocando naquela madrugada.

Mas o som que se ouvia por todo prédio era a mesma que fazia a dança de espíritos abençoados, aquela dança que fazem ao redor do carreio do Sol. E de onde mais poderia sair aquela sinfonia dos orvalhos senão de um som de carreio?

Mas o que fazia os espíritos abençoados dançarem era mais, bem mais.

E aquele som não era eterno, como o mármore. Porque o eterno é gelado, precisa de calor pra ganhar vida. Aquela canção era infinita como um bosque, um rio, um jardim de Açucena que se bifurca em milhares de sonhos.

Falar dessa canção não é como falar da chuva, da saudade do Coronel, dessas coisas que invariavelmente habitam no passado. Nem se muito quisessem.

Depois que Amauta ouviu essa canção, sabia que se tornara prisioneiro dela, assim como o cantador de histórias se tornara prisioneiro da capitã do mato. E nem se importou.

Essa canção tinha vida, tinha um jeito de olhar, de entortar a boca e o horizonte. Tinha jeito de prender o cabelo, até jeito de sorrir por causa da menina e seu cavalo. Feita de saudade e auspícios, que era mais que eterno, mais que infinito. E foi ouvindo aquela canção que ele andou pelo espelho que refletia seu amor.

Dizem que o chão estava coberto de açucenas.



* peça para se ler ao som de Gluck

sábado, 5 de setembro de 2009

Liturgias

Primeira Oração
Dom Quixote, nosso Senhor,
semeador entre semeadores,
rogai por nós, poetas e sonhadores.
Em nossos sonhos e na hora
sublime de nossa aurora.
E acaso no ocaso do descaso,
Engenhoso Fidalgo,
faz da Tua palavra, forte e imbatível
tal como lança em punho,
canção, o elmo prateado de sonho,
de ilusão,
Faz então, rogo, Amauta Pai,
cada som e cada verso
serem, absolutamente,
a batida de um só coração.