sábado, 5 de setembro de 2009

Liturgias

Primeira Oração
Dom Quixote, nosso Senhor,
semeador entre semeadores,
rogai por nós, poetas e sonhadores.
Em nossos sonhos e na hora
sublime de nossa aurora.
E acaso no ocaso do descaso,
Engenhoso Fidalgo,
faz da Tua palavra, forte e imbatível
tal como lança em punho,
canção, o elmo prateado de sonho,
de ilusão,
Faz então, rogo, Amauta Pai,
cada som e cada verso
serem, absolutamente,
a batida de um só coração.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Teogonia XVIII

De quando os caminhos foram semeados

Foi desses momentos, quando na vida a coisa aperta, fica tudo louco e chato e sem graça. E aquele menino, com cacoete de poeta, que passava aturdido e apressado, estava vestido com aquela roupa de ferro que os poetas vestem, preso às almas inquietas de suas próprias palavras.

Na verdade ele estava diante de si, de sua própria esfinge interior.

Essa esfinge colocava sobre ele seu olhar de ave de rapina, predadora de gentes e almas. A ela nada escapava, nem mesmo o esquecimento, nem a morte – e que morte pior que não ser esquecido?!

O fato é que sob os olhos de sua própria esfinge, o seu olhar se pôs diante do mundo como o silêncio cai sobre a noite. Esse silêncio não era nada perene ou sereno, mas atordoava e acuava.

Poetinha que via tudo, disse a ele que havia uma solução. Na verdade ele precisava de abraço, de alguém que por ele tivesse muito amor. Aliás, poetinha sabe que o amor vem daí, dessa vontade louca de se estar nos braços, mesmo quando nunca se esteve dentro desse abraço.

– E pode haver algo assim, poetinha? Existe “abraço em potencial”?

Poetinha então falou baixinho, sobre Certeza. Que nas palmas das mãos dela ele deixara cair tudo que ele tinha de bom. Seu açúcar, seu afeto, até mesmo aquelas gotas de melancolia que deixam a gente triste, meio calado, e que hoje ele não se sentia mais assim, porque nas mãos dela, de sua Certeza ele se sentia amado.

O menino ficou admirado de ver como os olhos de poetinha ficavam quando falava das mãos dela, e pensou que aquele deveria ser um amor que não cabia nem dentro das suas palavras de lira e de luar. Mas, irrequieto e curioso, mesmo diante de uma imagem tão bonita, pediu:

– Poetinha, não foge, sê linear, e o abraço?!?!

Ah, o abraço, o abraço... Poetinha sorriu, um tanto quanto enigmático. Perguntando ao menino se do abraço sentia saudade. O menino sabia que sim; poetinha também.

E poetinha então falou que ele compreenderia a existência de um abraço assim mesmo sem ter tido, sem ter sido abraçado, quando encontrasse o caminho que fizesse a saudade ir embora.

Um caminho assim só pode haver quando semeado. E aí falou, por fim, ao menino de olhar vivo e inquieto que ele precisaria encontrar sua Certeza, e que depois disso, até nesse mundo amargo, onde tudo é rígido e rude, o caminho semeado sempre seria largo e calmo e florido.

Dizem que nesse dia chovia, e depois disso pela chuva poetinha se apaixonou.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Teogonia XVII

Faz pouco mais de um mês, só.

E o inverno veio. E poetinha quis ser mais humano. Nesse tempo conheceu tanta dor, tanta tristeza aconteceu. Poetinha viu o Suplício.

Porque soube que o mundo perdeu, de todos as suas gentes, aquele que mais gostava de gente. Ele só queria conhecer o mundo da gente que sofre, que não tem onde dormir nem o que comer, que é aquela que faz da gente que não tem fome não dormir, com medo daqueles que tem fome. Sentia e sofria com ela. Só que ele também sabia sorrir com ela, e levava sorriso pra essa gente doída do mundo.

Mas o mundo não ficou mais triste não. Porque daquele sorriso, tão grande, tão humano, que vai ficar só saudade, poetinha saber que em alguma montanha nesse universo, ele estará lá, e vai fazer sorrir o bom Deus.

Poetinha tem visto o Suplício, a agonia de quem não perdoa. E viu que não praticar o perdão é tão ruim para a humanidade como uma mulher que chora.

E o Suplício do Coronel, homem colossal e forte e rude, mas de coração imenso, que mesmo sem forças murmurou aos seus ouvidos a sina da dor de Agamenon - porque ele por fim compreendeu que chegado estava à quadra senil.

Inverno dos Suplícios e lágrimas.

Só que poetinha já tinha Certeza dos caminhos para aquecer e amenizar seu olhar. Certeza, morninho essencial, que ensinou a poetinha todas as formas de traduzir os dialetos que o som da chuva lhe dizia.

Foi esse mesmo dialeto da chuva que poetinha aprendeu Certeza. E poetinha aprendeu a amar.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Teogonia XVI

De quando nasceu a certeza.

Por muito tempo poetinha foi incansável no estudo das caligrafias do mundo. Porque foi semeando e semeando que pode compreender suas formas, cores, aromas.

E assim percebeu que a vida não era nada muito diferente do que escrever incessantemente um poema, que nunca teria um fim. A última coisa que um poeta aprende, então, é morrer?

De tempos para cá, por conta disso, poetinha ficava cada vez mais calado e amuado. Como posso deixar um jardim de girassóis e Açucena se nada fica, se nada é, mas apenas tudo está e a todo instante não está mais? Ele viu, triste, tristemente, que desse jeito nada seria certo.

Poetinha então se isolou, por dias e dias, e percorreu os caminhos do seu jardim, pelas ruas cheias de gente e prédios e casas e carros. O mundo que passava diante de seus olhos e suas palavras. E como será que esse mundo poderia apenas estar e estar e estar, sem nunca ser.

E tudo na vida e no mundo seria e não seria, então, como um velho rio?

Desses paradoxos que fazem a vida que um dia poetinha encontra um por seus caminhos. Aliás, de todos eles, maior não poderia ter sido criado. Porque, se nada nunca pode ser, como terá existido, um dia, alguma certeza?

Foi poetinha, num dia de inverno, quem presenciou seu nascimento. Foram precisos cerca de 13 dias para ver brotar a Certeza Primordial. Por que estando certo do que sentia, aí sim seria possível escrever, semear, criar, e assim amar.

Foi preciso encontrar Certeza para então semear seu jardim para Açucena. Porque foi Certeza que o fez encontrar novamente a vida perdida na vida. Certeza o fez andar contra a morte.

Nesse punhado de dias onde brotou Certeza, poetinha entendeu que pode mesmo existir ato mais nobre que o ato de amar.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Da estranha forma de como o cantador de histórias se enamorou pela capitã do mato.

Há muitos e muitos anos, num tempo aonde as moças iam de luva para as missas e os homens puxavam a cadeira e se levantavam em respeito às suas mulheres. Um tempo quando palavra e alma moravam ainda na mesma tapera, lá pelos lados das Gerais.

Contam os antigos daquelas bandas que certa vez, num inverno que fazia das noites mais negras que a semente do guaraná, apareceu pelas terras um cantador. 

Ninguém sabia ao certo de onde vinha. Uns diziam ser um cigano. As carolas juravam que era um cristão novo. Outros juravam que poderia ser um turco ou libanês, ou qualquer outro ismaelita que tentava conviver entre os verdadeiros filhos de Cristo. Os menos fervorosos diziam que ele podia ser profeta, ou simplesmente um louco. 

Aquele cantador tinha um dom. Que o digam as moças dos vilarejos das redondezas. 

Não era como aqueles menestréis britânicos ou aqueles bardos franceses que cantavam odes às más damas que os domavam. Nem cantava glórias de um povo qualquer, ou de algum rei ou imperador. Mas ele sabia cantar e encantar o mundo ao redor.

Suas feições, distintas do povo do lugar, se juntavam à sua voz, que ninguém sabia dizer se era de menino ou de homem. Nem mesmo cantava lá tão bem. Aprendera a escolher e cuidar muito bem de cada palavra do seu canto, e vez ou outra acompanhava com algum instrumento de sopro ou de corda.

Cantava aquilo que mesmo aqueles pacatos homens e mulheres mal percebiam. Era o jeito que a moça tinha de olhar. O cheiro de biscoito e sujeira das crianças que saíam do liceu, o cheiro do ar quando vinha chuva que os passarinhos traziam na sua algazarra. 

Ele tinha aprendido uma maneira de fazer brotar a vida que ninguém mais percebia. Semeava algo entre um amanhecer e uma esperança. Que curioso era quando ia para a praça e as moças vinham, com ares de hipnotizadas, vê-lo!

Era tudo tão diferente, tão novo e encantador, para ciúme dos rapazes do lugar. Só que ele não se importava. Continuava sua vida errante, a cantar o mundo ao redor, e contar seu canto na forma de história, de palavra e de som.

Ah, ele aprendera com um cachorro gordo e branco o segredo de conhecer o cheiro de tudo que há por aí. Sabia cheiro de planta, de comida, de gente. E aprendeu a encher o som de cheiro. Sua poesia tinha mais que ritmo, tinha aromas...

E foi lá praqueles lados que ele pela primeira vez não soube usar palavras. Ele a viu, séria, dona de si, da ordem, feroz, altiva. Era a capitã do mato, a delegada, a juíza. O que ela tinha no jeito de falar ninguém sabe, mas o caos temia e se envergonhava perto da voz dela. Tudo emanava ordem, sobriedade. E tanto era o respeito que tinham por ela que nunca naquelas redondezas ninguém jamais fora preso!

E o cantador, calado, foi o primeiro a perceber que para além da fortaleza de mulher, lá na torre mais alta, vivia a princesa, com mãos delicadas, olhar terno, que o mais singelo sorriso aqueceria o coração mais embrutecido.

Os antigos dizem que aquela foi a primeira prisão, de verdade, daquela delegada. E nem era culpado o prisioneiro, mas era vítima. A moça-fortaleza mostrou àquele que era dentre todos os que andam por essa terra o que morava por detrás daqueles muros. E o encantador se viu encantado.

Dizem que a única prisão que é perpétua é aquela que não tem grades nem paredes. E foi justamente assim que a capitã do mato prendeu, com o jeito de olhar que ela tinha, o coração do cantador, e nunca mais o soltou.

Será que eles foram felizes para sempre?!?!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O silêncio do chamamés

Certa vez poetinha ouviu um violeiro contando num chamamés que era seguindo o rastro da lua o melhor jeito de se chegar, não importava onde. É Lua que faz, desfaz, leva, traz. A mesma Lua que de tão cheia e nua, poetinha se vestiu.

Mas numa certa noite fria e escura, de um azul quase preto, Açucena fez calar todo encanto do chamamés, nesses momentos que ficam na saudade que nem o cheiro de caju ou cheiro de chuva ficam grudados na memória.

Calou o chamamés, e fez poetinha compreender o horizonte que mora dentro do olhar, porque dentro daqueles olhos de menina, Açucena fez a Lua querer deitar seu rastro e sua sombra, tanto que ninguém entendeu porque o mar, naquele dia, não refletia mais a Lua.

Tudo porque nesse dia, o rastro da Lua foi querer morar no único que era mais bonito que todo o céu. E foi por ele que poetinha chegou ao jeito de olhar que Açucena tem.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Teogonia XV

De quando Amauta aprendeu novas formas de semear Açucenas.

Eu não sabia que você estava lá. Cheguei apressado, esbaforido, queria logo ver tua mãe, que tanta saudade deixa. Não foi preciso ninguém falar de ti, e, tudo meio sem querer, como a vida gosta de ser, eu te conheci, pequenina.

E bastou. Você ainda não veio ao mundo, pequeno anjinho, mas já soube me calar! E todos pensaram que alguma coisa me fazia triste. Será que eu fiz cara de quem queria chorar? Por que essa era minha vontade, mas me segurei. E olha, não foi fácil não. Tenho um fraco quanto às coisas pequenas. Gente miúda então, não deixa os olhos esconderem nada!

Talvez demore muito tempo para um reencontro nosso. Você não vai se lembrar desse primeiro, que eu nunca vou me esquecer. Provável que eu não veja quando da tua visão primeva perceber que, dentre os filhos de Baldur, aí no topo do mundo, você teve a dádiva de ser filho da rainha das cores, dos candores.

Fez saber que ainda se pode amar de forma instantânea, incondicional. Agora me diz: como foi que você me comoveu tanto assim?