quinta-feira, 13 de julho de 2017

Teofanias cotidianas

Olha só, vou te dizer o quanto isso é sério. 

Melhor, direi o que não quero que isso aqui seja: isso não é, de maneira alguma, poesia. O fato é que não suporto escrever poesia; não sou, nem pretendo ser, nenhum tipo de “antena da raça”. Isso não é uma elegia; não consigo elaborar grandes conceitos nem metáforas.

Li hoje que num país da Ásia Central um rapaz de 27 anos chamado Azatov foi preso, acusado de incitar atividades terroristas. Lá naquele país tem uma lista com várias religiões que são proibidas. Se você acredita numa delas e quer que alguém mais o faça, saiba que dá uma cadeia danada. Não faz o menor sentido ser crime acreditar diferente...

Ainda sobre acreditar diferente, outro dia desses recebi num e-mail um convite, que já não me lembro se era um lançamento de livro, um seminário, uma celebração, sobre os quinhentos anos da Reforma Protestante. Meio milênio! A gente estuda isso no colégio, na faculdade; parece que é apenas um ou outro capítulo de um evento da história do ocidente. E essa era só mais uma obra sobre o tema: que poderíamos falar por horas e horas a fio, e escrever milhares de páginas sobre uma das suas milhares de suas explicações e interpretações possíveis.

O que tenho aqui é diferente. É um punhado de coisas que não conseguem ser ditas nem emolduradas em folhas de papel, mas é de encher o peito, de inflamar o caráter.

Sabe daquelas coisas que te inundam? Pois é... Agora veja bem o quanto isso é sério! Inunda, de transbordar e de escorrer pelos dedos, e é aquele malabarismo com a língua que fazemos para não desperdiçar nem uma gota que seja. Delicado, erótico e perturbador, de encher o peito. Isso é sagrado! Agora diz pra mim se isso não é sério!?

Hoje no metrô vi uma menininha no colo da mãe, pelo reflexo do vidro da porta. Ela segurava o vestido, visivelmente novo, pela ponta, e sorria. O que aquelas mãozinhas seguravam era algo mais sagrado que um sudário, era radiante! Ela me viu na imagem refletida, sorrindo, e sorriu de volta.

No irreal daquele espelho que se fazia no vidro talvez eu pudesse dizer o quanto ela sim estava linda e que eu queria muito ter uma filha igualzinha a ela.

Veja bem o quanto isso é importante! Quando mesmo tudo parece não fazer o menor sentido, num mundo ao redor que me desentende a todo tempo, onde tudo parece ser feito para arruinar esperanças, um momento desses é muito mais que um alento.

Esses instantes todos são feitos de muitas eternidades, como uma criança que ainda vai nascer, e que a gente sabe que ela terá nome de flor.

Isso é muito, muito sério.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A casa

A casa não é somente um lugar de dormir e comer; é onde o nosso mundo tem sentido. 

O lugar que ordena os objetos do nosso espírito, que corresponde às amplitudes da nossa própria alma, para além dos embaraços e constrangimentos de acasos do tempo.

Porque ali fico despojado de tudo que as condições do tempo e da história fizeram em mim. Livre do agora, do aqui, do instante. Porque é luminoso e intenso e cheio de história, como uma ponte gasta no encontro de dois rios.

E me dá uma vontade imensa de beijar todas as suas ousadias do restante da vida. Porque mesmo longe da montanha, a casa me faz sentir acompanhado como nunca.

A casa é o instante que aprendemos a ocupar nosso lugar na esperança, ou no mundo das nostalgias do futuro... 

Disseram uma vez que é preciso morrer para ser pai de um poema. Não concordo; juro que o fundamental é simplesmente aprender a chegar em casa.


segunda-feira, 22 de maio de 2017

Quando uma professora te deseja uma montanha

Nossas noites hoje já não são um punhado de estrelas na trama escura do céu. E não se engane: se a lua for sua mãe, ela não será feita de ternura como Maria. 

O mundo nunca foi nem será um lugar tranquilo, não se engane: sempre há o peso de juízos, de perigos e princípios.

Entretanto bastou olhar para uma montanha para entender dos abismos tangenciando meus infinitos: erguendo outros milagres, outro céu, aprendendo a andar num “labirinto móvel”, por entre aquilo que cega, e que equivocadamente depositamos sonhos e esperanças.

Esse olhar não precisa ser de ouro ou de prata; que seja de vida. Que olhe para um futuro e não para um velho mundo de alicerces caducos e já abalados. Um olhar deve ser uma conjuração contra maus caminhos e fantasmas.

Os olhos como “artesãos lúcidos” e sinceros das nossas próprias revelações.

Essa é a lucidez do milagre de olhar para as montanhas – e eu só precisei de uma! – você não sente vertigem, sente sagrado.


No mistério e na ousadia da montanha é onde meu mundo faz sentido.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Do retorno ao castelo que era meu

Olhava para a fumaça que saía da caneca, que lentamente subia, minguava e sumia no ar.

A cada gole sentia a garganta amargar. Não bebia com açúcar; café tem que ser forte como o desejo, escuro como a noite e puro como o amor, lembrava do velho libanês. O amargo cura, como um tapa na cara.

Nada mais sincero que um tapa, pensou. 

Era tão impossível assim que ela voltasse? Sim, até há pouco era, até ela aparecer. Os olhos de prata... 

Naquele dia chovia tanto, aquela chuva copiosa e birmanesa que ele gostava tanto. E ela o procurou, com aqueles mesmos olhos de prata que com tanta dor há anos atrás pediram que ficasse.

E pensar que aqueles mesmos olhos de prata, ali, fixados nele, há pouco tempo pareciam um horizonte intocável e distante, fugindo de seus dedos como a noite foge da manhã. Culpa minha, pensava. Como pude ser tão estúpido? 

Ali, parado, olhando para ela, sem saber se sorria ou chorava, se gritava ou corria pela noite chuvosa, a boca era um chocalho de palavras torturadas pelo silêncio. O que eu digo? Será que ela sabe o que foi não a ter por perto esse tempo todo?

Regressou, não teve jeito. Não pode resistir ao chamado daqueles olhos de prata, do olhar que era seu, que era desde anos antes tão magnífico como um castelo. Esse castelo é meu!.

Já se passou um mês desde seu retorno, mas os dias se vestem de eras, e tudo parece adoravelmente comum e cotidiano, como o dormir e o despertar.

Parece que o Tempo se arrependeu de ter virado as costas para eles, como se agora tivessem entrado num mesmo rio e nunca mais saído de dentro dele. 

Quem é capaz de fazer o tempo voltar atrás e mudar o que ficou no passado? Porque a fé e o sonho ficaram perdidos naquela outra despedida, tristes e calados. E não cabia dentro dele o imenso que era entrar de novo naquele castelo, ser de novo daqueles olhos de prata. 

Ela sabe que me fez reinventar a fé e o sonho? Tratou logo de entalhar mantra,  segredo, promessa, jura, prece, ou qualquer nome que queiram dar, não importa. Aquele é só dela, e agora ela sabe!

Esse castelo é meu! Sorriu, e foi dormir, com medo daqueles anos de vazio, vasto como um deserto. 

Porque é muito fácil pra qualquer um se apaixonar quebrando rotinas, surpreender, ir e fazer o extraordinário. Quando isso acontece, nascem paixões, nasce o furor, aquela sanha que lambe tudo e chacoalha os juízos. Mas aí vem a segunda-feira, e tudo se esvazia. 

Talvez o extraordinário não seja tão extraordinário assim...

O medo diminui. Ele se pergunta o que pode transcender esse furor, a fugacidade do incomum? O que é capaz de tolerar o cotidiano, de compartilhar um espaço onde só caberia um, de transitar na cozinha, de trabalhar na mesma mesa, até no desejo de querer ajudar a corrigir a parte chata de metodologia de um projeto. Qualquer um pode fazer o extraordinário... mas só quem olha com olhos de prata faz da rotina essa coisa indizível que às vezes acho que consigo dizer.

Agora o sonho não tem medo, nem trauma. Porque o castelo tem dono, e ele é meu!

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O dia que o mundo soube o segredo de tecer labirintos

Foram mais de cinco anos.
 
Conheci Clara em 2008, na minha primeira aula no curso de ciências sociais aqui da UERJ. Os veteranos diziam que era pra estudar muito porque a professora que ia dar aula de antropologia era exigente demais, que pegava pesado.

Logo nas primeiras semanas do curso, lembro que ela começou a aula perguntando quem tinha lido o texto. Como poucos tinham lido, ela simplesmente falou que não poderia continuar se a turma não ajudasse, pegou as coisas e saiu. Todo mundo ficou estarrecido! Naquele dia eu aprendi que aquela professora era séria mesmo.

Eu nem fazia ideia do que era antropologia, mas aos poucos Clara foi mostrando o quão envolvente era aquele mundo. Era tudo tão bom e diferente, um mundo de mitos e ritos e formas.

No ano seguinte, ela me chamou para fazer parte do grupo de pesquisa que ela coordenava, como bolsista de iniciação científica. Ela sabia que eu precisava trabalhar, e que não podia estar sempre disponível, mas assim mesmo ela me aceitou, confiou em mim.

E com Clara fui aprendendo os caminhos da vida acadêmica - e aquela foi a única chance que eu tive. Cobrava bastante sim; a gente passava um dobrado pra entregar as tarefas cumpridas. Mas aquela oportunidade a gente tinha que fazer por merecer, e valeu todo sacrifício.

E desde então, todos os passos que dei nesse início de trajetória acadêmica tive sempre a presença de Clara. Ela foi professora, orientadora, colega de pesquisa e também uma amiga. Esse carinho, essa confiança, eu já via na relação dela com os orientandos mais antigos, como a Cláudia, a Vanessa, a Andreia, o Sérgio, e vi crescer aos poucos com a Bruna, comigo.

Onde nascia respeito e admiração, pela professora e antropóloga consagrada, ia crescendo também carinho e amizade.

Essa amizade que Clara tecia com os alunos era que nem um labirinto, de tramas que não se desataram, nem vão se desatar... Por nenhum deus. Nem pela usura dos dias.

E agora estamos todos aqui, falando de memórias.
 
Memórias que são um privilégio, porque são essas as pequenas sabedorias, da linhagem direta da família dos milagres cotidianos, e que não se perdem jamais.

Mas uma ausência... é tão elementar quanto uma lembrança.

Já se passou mais de um mês daquele dia 19 que nunca acabou, mas que está lá guardado, sob a integridade da noite.
 
Só fui me dar conta disso depois, quando voltei aqui pra UERJ, e olhar os corredores do nono andar vazios, que pareciam implicar comigo, insistentemente me dizendo que ela nunca mais ia chegar lá na ponta do corredor.

Ali, só habitavam o silêncio e o vazio. E a única coisa que se fazia ouvir era a realidade, falível, quase insuportável.
 
Por que o que nos livra da angústia, do peso insustentável da finitude, da falibilidade do real? Por que somos tão presos à vida, tal qual um jogador ao seu tabuleiro, que entre os dias vai movendo as peças da vida feitas de tempo, sonho e agonia? Como aqueles sinos dobram tanta agonia?

Essa é uma das coisas irrevogáveis da vida que a gente tem que aprender a lidar. O nosso destino de ferro...

Mas com o tempo a gente vai entrando aos poucos no mesmo rio em que Heráclito viu toda nossa loucura.
 
Clara também me ensinou que a memória, mesmo que inventada, nunca é perecível. As lembranças têm um “quê” de mágica. 

Assim como o tempo, nossas memórias sobrevivem às nossas metáforas e aos mitos, mesmo quando a gente se vê diante da rigidez dessas regras onipotentes que impomos às formas e aos nossos sonhos, e que com elas vamos tramando e destramando a vida, e quando nos deparamos, não deu tempo de dizer aquelas frases que fazem diferença: "sabia que eu gosto tanto de você?" ou "como eu adoro o jeito que você tem de prender o cabelo" ou mesmo dizer, simplesmente, “adeus”.

Às vezes, por causa disso, penso que esquecer é um dom nefasto, filho do ocaso, como se nossa matéria fosse composta apenas de tempo. E para esquecer, muitas vezes a gente prefere ter a ilusão de nem saber que partimos.

Mesmo que se julgue o tempo, ele sempre será intransigente, ele vem. Ele virá, e nunca em vão.

Olhar para trás, para esses cinco anos é ver uma trama elegante de coisas simples, delicadas e cuidadosas, impossíveis de se esquecer. Porque lembrar é como criar. É um ato de amor.

Ainda nos falta chão para erigir um novo tempo, mas acredito que já temos um azul para o céu desse tempo, um punhado de lembranças, uma saudade que cresce.

Essa saudade de você Clara é agora toda magia que a gente tem.

 

terça-feira, 26 de março de 2013

O Capitão Bogatir e a Garota - uma outra história mais ou menos inventada


O Capitão Bogatir não tinha dons, nem poderes de super-herói. Não voava nem soltava raios cósmicos pelas pontas dos dedos. Mas já naquela época, em tempos de mesmices e falta de ideias, era ousado.

Os mais antigos diziam que ele se dirigia aos deuses usando “ti”... Épico, mesmo nos tempos tão pouco épicos.

Só que cansou de tecer sonhos, de todas as tentativas frustradas de realizar coisas impossíveis. Ele se perguntava: onde estaria a Garota?

Depois que derrotaram o Senhor do Vale do Silêncio ela foi para os desertos do oeste e nunca mais se viram.

O que pode ter acontecido? Tentava se lembrar; cadê os olhos e a voz dela!?!?

O esforço quase em vão doía mais que um golpe; era um último insulto, melindroso e cínico como o próprio inferno. A angústia da ausência dela impedia qualquer movimento, embotava sua visão.

A falta que ela começou a fazer era tão grande que ele era capaz de apressar o tempo, porque aquela angústia não deixava a lembrança ver o que faltava. Talvez ele não fosse tão heroico assim...

Só que uma coisa a desolação não conseguiu atingir; chegou um momento que a angústia adormeceu, surda e muda, e não pode aprisiona-lo por tanto tempo.
 
Nada poderia conter as hordas desenfreadas de sua saudade, que iam golpeando aquele vazio, testemunhando combates que nunca foram combatidos. Era mágico!

Aliás, não era o que a Garota procurava? Um pouquinho de mágica, que talvez estivessem perdidas lá pelas terras ermas do oeste? Também, naquele lugar de letargias nem mesmo a Garota ou o Capitão encontrariam mágica. Nem naquele presente nem no passado, era preciso futuro. Um canhão de futuro, uma nação inteira de futuro!

A mágica estava lá, naquela terra que ultrapassava o presente, fugindo das incertezas e dos irremediáveis e do cotidiano.
 
Ela queria um pouquinho de mágica, e ele um pouquinho de certeza. E para fugir do desterro de si, o Capitão Bogatir foi para o oeste, sem saber que se encontraria a sua certeza ou a mágica dela, mas não importava mais, porque ele já partiu com saudade do futuro.

A única certeza que já tinha é que esse futuro que já tinha saudade era o tempo da Garota: era ela quem tocava as trompas daquele novo tempo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Depois da chuva

Depois da chuva, foi ela quem falou. E bastou para ele se inundar de imenso, daquele oceano que desabava do céu.

Era a chuva, mas só depois dela...

Ficou quieto, deixando o imenso inundar os corredores do labirinto que tinha dentro dele, ao ponto de criar a desconfiança que estava sob o céu do Sião, e que por aqueles corredores e galerias pudesse até encontrar algo que fosse parecido com uma alma.
 
Depois da chuva, ela prometeu, enchendo o peito dele de esperança.
 
Mas a chuva não passava; ela não estava lá. Só o cantinho vazio, o mesmo canto que ele quis tanto que fosse dela. Aquela ausência, súbita e silenciosa, crescia como se fosse uma árvore, destinada a ser lenta e paciente.
 
Ele se lembrava.  Depois da chuva. E com a lembrança vinha a esperança que por entre as nuvens ela também viesse, com aquele mesmo olhar que tomou posse do cantinho, dos seus anseios, até do jeito pasmem que ele tinha de olhar.

E ele ficou esperando a chuva passar, descobrir as estrelas e a tabula rasa que tinha dentro do peito.
 
Quem é o seu chaveiro? Eu deixei as portas fechadas, como você conseguiu?!?!  É claro que ele tinha as dúvidas; ela entrou tão delicada e repentinamente naquele lugar desabitado, levando pra lá as inundações que tinha - até nas pontas dos dedos.
 
Depois da chuva será breve, virá depressa. Por que a inundação que ela sabia causar não era cheia de convicção e perfídia, ela não atuava!

Mas a chuva também inundava com uma sinceridade escancarada, tão direta como a dor de tantas bordoadas que ele sentia ao olhar para o cantinho... que já era dela.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Uma tragédia feita de duas angústias e um tapa

Dois anos! Há dois anos você veio, bagunçando tudo.

Dizem por aí que você anda sem fazer ruído, mas todo mundo sabia que você já estava à espreita. Contando no seu caderninho amarelado mais uma alma. Aquela alma, já tão desgastada! 

E qual alma não é? 

Foi isso que disse, ao passar pela porta. Que cínica!

Você sorriu. E todo mundo em volta calou. Calou e chorou, não querendo, mas tendo que te engolir a seco, sem conseguir mastigar. 

Tão velha quanto a porta do inferno! Eu sei! Mas hoje, vendo quem você é, sei que não passa de uma sombra retorcida, que fica lá deitada numa colina coberta de prímulas, onde a confusão de sonho e de concreto vira espera. 

Espera. Só espera. Esse é o seu poder e a sua perversidade

Há dois anos você veio, não quis jogar comigo, eu sei. Agora eu sei! Você veio, com sua luz azul e fria e ficou rondando, simplesmente, e mostrou como é o teu jogo. 

Quando quer você é direta, como um soco no estômago, como todos aqueles que me dei, há exatos dois anos, pensando inutilmente que faria a sua presença mais tolerável.

Idiota... 

Ninguém te engana, não é mesmo? Você pode até levar embora as confissões daquela moça de olhar enigmático. E você levou.

Quando quis me tomou tanta gente tão próxima, tão amada, sem nem ao mesmo me perguntar. Sua suavidade é pura truculência. Mas você nem se importa.

Levou o que eu tinha de bom e de exemplo. E a cada vez que respiro, você dá mais um passo na minha direção

Um dia eu chego, viu?

Eu sei, sua cretina. Você virá, vai segurar minha testa e me deitar entre as prímulas e a treva. 

Enquanto você dá seus passos gastos e demarcados, eu também dou os meus. 

Só tem uma diferença: a cada vez que levanto meus pés, levanto a poeira de todos os mortos que você me tirou. 

E eu sei que quando eu jogo essa memória toda na sua cara, te dói tanto quanto esse tapa que você veio me dar nessa madrugada.

Dois anos, sua infame. Dois anos!

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O piano: uma história mais ou menos inventada


Aconteceu há muitos anos, quando o mundo ainda se espantava com aquelas imagens. Elas se moviam! Aqueles irmãos, endiabrados e luminosos, deram ao mundo novos sentidos.

Vejam só que mágico: elas se moviam!

Naquela época, porém, esses novos sentidos do mundo não tinham cores nem som.

E justamente era esse o trabalho da vó. Ela dava som para o mundo novo. Som!

O filho mais novo dela contava que, quando menino, levava para ela as partituras, e ficava lá, quietinho, esperando a vó acabar. Sempre vou achar que essa era a melhor tarefa a ser dada para uma criança.

A vó sabia decompor o silêncio! Ainda hoje eu acho que o segredo de escrever é o mesmo que ela usava ao tocar o piano.

O tempo passou.

O piano da vó já não existia mais, ninguém sabia muito bem o seu paradeiro.

A netinha daquele menino que sentava ao lado do piano ouvia encantada aquelas histórias da vó. E ele inundava o mundo dela de imensidão, sonhos e curiosidades.

Dizem que foi por causa desses sonhos tão bonitos, mais puros que uma flor amarela e mais honrosos que qualquer medalha, que o piano não resistiu e quis voltar.

 A menina soube que ele estava lá, em algum lugar nas montanhas. E foi correndo atrás dele. Mal podia acreditar quando chegou; não foi um simples achado, era o embate de corações tremendamente delicados, afastados pelo tempo, que finalmente cumpriam seu destino de pertencerem um ao outro.

Até hoje o piano feito de sonhos está lá, na casa daquela menina, cheio de imenso, ressoando pela sala.

A menina não toca o piano; até mora longe dele. Mas quem a conhece consegue perceber que o piano mágico da vó deu a ela um dom.

Se vocês olharem lá no fundo dos olhos esverdeados da menina, podem ver num cantinho daquele brilho que quem não tem sonhos não tem nada nessa vida.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A outra despedida

Ela o viu entrar pelo cômodo, todo ornado, preparado para sair e talvez nunca mais voltar.

Já vais?

Não pode responder, não queria dizer que sim. No fundo, no fundo, temia. Teriam os deuses destinado aquela chaga? Não respondeu; o silêncio que se estabelecera já dizia tudo, e parecia falar diretamente ao desespero do olhar dela. Olhos de prata, ele pensou.

Nem todo brilho da reluzente armadura suportava a luz insuportável que descia das gotas quentes da dor incontida.

Por favor, não chores! Já reinas sobre os homens e, principalmente, sobre mim.

O mais bravo guerreiro, semelhante a deuses. Nunca se sentira tão frágil, indefeso. Mortal. Que sensação era aquela, pior que todas as memórias imagináveis de derrotas e de ferimentos?

Não vá. Fique.

Ele tentava não demonstrar aquele mar revolto nos seus pensamentos. A agonia do olhar dela parecia, agora, refletir a dele.

Não vejo razão alguma nesta guerra. Matei tantos, feri outros tantos mais, fiz pais e mães e esposas chorarem por seus queridos... E que ganhei com isso? Um nome, um panteão, glórias a serem cantadas por bardos após a minha queda diante do impiedoso bronze?

Aquilo já não fez mais sentido, nem por terra, nem louvores nem poder. Queria ceder àquela fúria desconhecida que fervia seu peito e enchia seus pulmões com uma doçura morna e agradável. Ofegava tenso.

Silêncio. Intangível, gritante silêncio. Imenso e pleno silêncio. Desertar? Desistir? Terror de homens e exércitos, agora ele estava imóvel e entregue.

Tudo bem?

Sim...

Não, não está. Por que escondes na boca o que seus olhos me dizem?
Ela conhecia as reentrâncias e atalhos do olhar dele, tão impetuoso em batalha. Vulnerável diante dela. Rainha de mim... Reinas sobre mim, muito e amiúde, pensou. Fechou os olhos, como se negra noite os tivesse coberto. Baixou a cabeça por um instante ou dois. Lembrava daqueles olhos de prata. Até o sol teria se posto por causa deles.

Então, partirás? Não vá, por favor...

A pergunta dobrava na saudade já, como um sino incessante. Impasse feito de som e ternura se fez. Lembrou-se das conversas com seu pai, rei de homens e terras, falando do destino que lhe fora reservado. Destino tecido por algum artesão perverso... Não tinha mais vontade ou razão para acatar os caprichos inexoráveis de deuses egoístas.

Remando ou não remando, meu filho, o rio da vida nos leva para a foz do destino...” Por anos ouvira isso, sob a proteção das estrelas. Destino, por qual razão hei de cumprir? Glórias aos deuses que tomarão o que me é mais caro?

Olhava para ela agora. Entendia o sentido daquilo agora. Não podia expir a culpa de pecados não cometidos. Essa culpa não era dele. Nosso herói deteve-se diante da porta. Deu um passo para trás, e voltou o olhar para ela.

Esperava uma resposta. Então, ficarás?

Assim pensou nosso herói, que antes de ser preferido ou querido por deuses e deusas, era melhor ser homem, e ser daquele olhar. Meus amados olhos de prata... Desígnio algum poderia ser divino diante deles. Naquele instante, ele descobriu algo dentro de si, maior que qualquer guerra, que a fúria de homens e deuses.

Algo mais forte que um mito e que o tempo. Até porque nem mesmo os séculos conseguiram calar o que ali fora selado.

Dizem que ali nasceu algo tão imenso e eterno que ficou encrustado em algum vão do céu.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Em busca do Castelo de Mirra III

Nunca Me Esqueças

Lembrei nesses dias de quando entrou em minha vida... De como me fez tão bem perceber que você me levou do desterro à plenitude. Por isso quis tanto te fazer um presente, mas poucas coisas sei fazer que não fermentar palavras, beber e ficar embrigado.

Queria mesmo te dar um rio, um lago inteiro, o vento, ou então uma manhã.

Não uma manhã qualquer; uma que tenha aromas, sem o desespero de quem foge da treva. Tranquila, sem ardis e razões; pura potência, infinta, ou de quem se põe demoradamente sob luas e se emociona quando a noite se envergonha e o dia aparece.

Mas o que te darei é tão irreversível quanto um rio ou um lago, o nonsense e o absurdo. Não é muito além de palavras esparsas em cadernos e rascunhos desconexos. mas saiba que ali deixei plantada toda a poesia que morou em mim.

Mas a vida não é assim como eu ou você queremos, nem os ventos sopram como queremos. Os pequenos pedaços de candor da vida são arrastados pelas contradições, por aquilo que é. Porque assim é o viver; um ser e não ser.

E vamos atuando constante e insistentemente pelos palcos de nós mesmos. Se te deixo um presente, então que ele possa te ajudar a viver, a descobrir o que você é, e o que você não é.

Porque esse presente pode denunciar toda vergonha e perfídia que existe por trás de um sorriso ou palavra, porque o ser tem tantos ou mais ardis como o não-ser. E você encontrará o meu carinho nesse instante, quando tal como um dedo apontando para as chagas do ser, o ser e o não-ser brotem dentro de você, desatando tormentas, demolindo tronos, sejam eles feitos de ouro ou de vento.

Esse poder todo está aí, agora e sempre, em você, Nunca Me Esqueças. É seu, nasceu contigo, não é sina nem castigo. Porque você é, e você também não-é.

Meu desejo é que assim o faça, não por amar ou fazer-se amada, mas pela pura alegria de fazer brotar realidade.

E que a todo instante ser, e não ser, completamente, nada.


Soslaio

terça-feira, 7 de junho de 2011

Liturgia profana e um pequeno prólogo

Aqui estão os versos que fizeram questão de vir morar dentro desta prosa profana, feita de todas as coisas poucas e pequenas desse mundo, de todos os primeiros instantes de manhã e também de todas as outras coisas que eu insistentemente não sei.
Poetinha


Certa vez, um já antigo Amauta notou que por muito tempo semeou angústias. Estava cansado de angustiar por aí afora o mundo profano.

Perseguia formas sem nunca tê-las encontrado, como se assim pudesse abraçar um semideus qualquer. Uma forma assim só poderia caber dentro de um abraço que fosse eterno. E assim foi o Amauta. Ao encontro de uma retórica quase-divina, que faria brotar a infinitude de mundos onde a única impossiblidade é não-ser.

Precisou rir do inverno, deixar-se domar de frio e de sereno. Foi como aprender a destinar os sonhos.

Depois de tanta chuva, desceu daquele céu profundo um sopro de tanta vida, capaz de abrir açucenas e girassóis no jardim do mundo. No meio desse jardim novo avistava um riacho, onde toda amargura de saudades não aplacadas pode ser lavada.

Das luzes desse novo dia desce um arco de loucuras que coroa o Amauta. Desse sonho brota uma flor, feita de mito. Essa flor, Eva primordial, que transfigurava desventura em afeto: Amauta colhe Açucena.

Afinal, convenhamos, uma fonte dessas não poderia brotar do chão, mas senão da boca de uma flor.

Beleza sagrada do profano.

E voz incauta sussurra: são tão sábias essas coisas que nos convidam à vida, não? E nos vêm por meio de sinais tão sutis, como se fossem feitas das mãos pequenas do vento. Mãozinhas que não fazem movimentos; fazem virtudes.

Algumas vezes, Amauta, os donos dessas mãos, esses santos miudinhos, cruzam nossas vidas. Cheirando a sujeira ou biscoito, ou maçã e leite.

Sim, voz incauta. Outro dia mesmo cruzei com uma, risonha e incansável, sem sombra ou incerteza – o impasse adorável da fragilidade e da ternura.

São esses santos profanos que nos abrem os olhos ao incêndio da vida.

E voz incauta vai. "A fonte, o rio, está em ti mesmo, Amauta".

No despertar, pode assim compreender a única realidade que semeara. Que, mesmo ressecada e calada, uma flor suporta mais filosofia do que alguma biblioteca infinita.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Em busca do Castelo de Mirra II

E viver é corromper-se ou perder a ingenuidade?

Uma lembrança impossível, de um passado breve, ainda opaco, vagamente triste. Hoje Soslaio era noite e era nada. Ainda ontem seria esquecimento, e ocaso, como se não houvesse em mim nada que não fosse um sigilo eterno de estátua.

Pra que viver algo que não seja próximo à vida e morrer sem conhecer nada magnífico ou infindável?

É preciso mais do que simples lembranças.

Soslaio tinha que encontrar alguma memória fantástica, maior que o absoluto, que o tempo, que o pecado... arrastar ventos pelas noites afora até sentir os primeiros toques de delicados dedos da Manhã, já maquinando algum tipo de maravilha ou imaginância.

Ainda não achava isso. Diante do espelho, parecia ver senão um labirinto eterno de vidro e solidão. Não via reflexo do passado, as coisas boas que fez ou sentiu. Não! O que reflete ali não é mais nada senão um impasse de vigília, de carne e paixão.

Mas deteve-se, insistente, E viu surgir um punhado de lembranças futuras. A irrevogável e inevitável memória do porvir, mais pesada que a realidade, tão curta quanto o passado.

Memórias do anseio de um não-saber! E que nos arrastam num formidável rio já forjado há tantos e tantos anos. Nesse lugar-rio as palavras engendram o fabuloso e o profético.

Soslaio concebeu ali a condição de eterno das memórias, capaz de enternecer as fábulas e profecias. Era o reflexo de seu destino: estar entre o trivial e o sagrado.

E viu que a lembrança é o não-morrer. O sagrado que foi morar em Soslaio é eterno; não poderia morrer inteiramente. Suas memórias tão vastas como um continente, imagens sem fim, que envergonham ao esquecimento.

Lembrar... como ler um escrito já pressentido, já repleto de infinito. Soslaio lembrou e escreveu, de forma insistente e delicada. E daquelas enfermidades da sombra da memória erigiu uma espécie indecifrável e encantadora de Deus. E sua lembrança mais terna e mais eterna tinha sempre o mesmo nome:

Nunca Me Esqueças

E viverá de agora em diante assim, numa senda futura já percorrida.

Esquecer é o pior dos pecados, a forma mais infame de matar alguém. É a sombra da memória, sem tristezas, sem lamentos. Apenas o fim, rude e seco.

O milagre da memória causa assombro. Até à morte.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Em busca do Castelo de Mirra

Andava sonhando. Tinha nos olhos a foz de um rio, um aguamento só. Mas esses sonhos agora eram outros, de um jeito que já não acontece mais.

Tentou se despedir de algo que pensava ter morrido dentro de si.

Soslaio sabia sim que os sonhos, agora, não são como os de outrora; que teria que aprender sozinho sobre os lugares e os quandos, e os comos corretos, e a andar por eles tentando desenhar um novo caminho. Ainda tentou desfazer, em vão, todos aqueles sonhos de antanho.

Como se fosse possível despetalar uma estrela ou de uma flor fantástica que semeara...

Parecia que aquelas estrelas agora brilhavam indiferentes a ele.

Então se despediu e a dor que Soslaio sentiu ainda persiste... e o persegue com um ar quente e vaporoso.

Soslaio partiu em busca de onde os sonhos amadureciam. Ouviu num vento que em algum lugar perto do Vale dos Anseios encontraria um castelo que não tinha a feiúra uniforme dos prédios que o rodeavam – as palavras ditas sobre esse lugar ficam úmidas e com cheiro de manhã.

Castelo de Mirra era seu nome.

E tal como um ente que sofre de incontinência verbal, Soslaio viu que era feito também da mesma matéria miúda que o Castelo, e de uma matéria miúda só poderia ser composta de puro som.

Quem teria dedos tão delicados capazes de forjar e segurar o som entre as próprias mãos, domando e recriando a música primordial que coroa todas as manhãs?

Nunca se vira tanta devoção assim, nem tanto carinho. A dona daquelas mãos que fazem e que curam e que amam olhava de soslaio para ele. Dessa coincidência adorável Soslaio dobrou um pássaro de jade, que partiu voando até o Castelo de Mirra. E pediu ao seu amigo que sussurrasse à semeadora de girassóis e sonhos maduros o único nome que pode ser gravado na saudade de Soslaio:

Nunca Me Esqueças.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Pequeno manifesto minimalista

Não foi preciso muito esforço,
para fazer aquela aurora,
e carrear o sol
na biga divina das palavras
Sua manhã
foi tecer um novo mundo,
com novos dedos.

Se foi o prelúdio do inverno,
Ou o silêncio do tempo
passando em vão.
Quem se importa?

Se desço e olho ao redor
e o mundo todo passa,
ausente.
Ninguém sente!

A lembrança ainda assim tem som,
que ressoa calmamente.
Da moça que olha, quando passa.
Passa como o tempo,
como o vento.
E sai e gela...
Meu mundo cala.

Se olha
tão bonito assim,
olha também pra mim?

terça-feira, 8 de junho de 2010

Teogonia XXIV

De quando poetinha descobriu que Açucena começara a andar.

Não sei por qual motivo escrevo. Não é por louros, ou por louvores ou pelo gozo sem sentido de um lirismo egoísta qualquer.

Sou um semeador, não sei ser poeta. Só o fui poucas vezes, quando fui outro, que não enjaulado em mim. No mais, fui me criando e recriando, fugindo das masmorras do “Castelo do próprio eu”.

Ainda não sei por que escrevo.

Ela não precisou falar nada, ou de qualquer literatura. E já me toma e doma assim!

Por vezes ela passa por aqui, saindo da sala contígua a esta. É tão diferente das outras, parece ter mais vida dentro do canto do olho do que muitas não têm no corpo inteiro. Quando ela sai, tal como um segundo movimento de um concerto, deixa pra trás aquele rastro de melancolia.

Até o vazio sabe que ela fará falta. Ela já saiu...

Que instante perpétuo!

Sai e olha, com aquele mesmo cantinho de olho. Posso não ser poeta, mas vou morrer achando que aquele olhar é para mim. E será que ela me vê desse jeito tão absorto e rendido?

Ela anda como ressoa um poema provençal. Doce, despreocupado, quase indolente. E como não cair, num impulso de delírio, diante do jeito que ela tem de andar, arrastando os pés.

Saiu e ainda não voltou. Instante perpétuo que tem cheiro de saudade. Será?

Penso num punhado de estrelas e lá escondo o olhar dela que foi meu.

Voltou, andando devagar, sem saber que já anda pelos corredores das minhas intenções, mesmo sem o meu consentimento.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Liturgias III

Certa noite, quando muito chovia, Amauta teve um sonho, que nem era tão sonho assim.

Andava em meio à neblina, enquanto ia por um caminho rente a uma grande parede, beirando um mar revolto e cinzento. Subindo e subindo, cada vez mais.

Eram tantas pedras que mal podia contar.

É bem verdade que poetinhas, sonhadores, estão acostumados a essas longas travessias. Também é verdade que essas jornadas não servem para nada.

Não prestam a conquistar ou descobrir lugares, nem caminhos. Porque só podemos conhecer aqueles caminhos que já são nossos.

Nessa jornada dilatada, Amauta ouviu um choro, um choro de menina. Chorar a lágrima viva, dom do Alívio. E só o alívio o guiaria na hora da aflição.

Olha então para o alto. Brilham as Três Marias. Abraçado aos vazios de seu coração, Amauta sabe que só quem o guiaria seria das Três, a Segunda Maria.

Agora então ele podia compreender.

Guiado pela menina-estrela, aquele caminho o levaria até a luz, longe de sombras e ausência e desolação. Um lugar de importância.

Do sonho à poesia.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Lendas pärtianas IV

Spiegel im spiegel, a lenda da anatomia do espelho.

Estiagem... Entre aquele céu que fora forjado pelo Amauta e a cama de poeira de estrelas que fizera para Açucena, deitou uma nuvem densa e fria de silêncio. Essa nuvem, essa peste fazia do jardim um labirinto rude e agreste.

Os dias passavam, em branco, mostrando uma audácia em não querer ser nada. E foi quando o Amauta, diante do pasmo de não-ser, conheceu a desmemoria, como se estivesse diante de uma parede que em vão espera uma pintura que jamais será feita, sentenciado ao castigo da ausência de viver sem palavras num mundo repleto de mesmices e falta de idéias.

Preso no labirinto que habitava dentro de si, girassóis murchavam, Lua deixava de ser Lua para ser um astro desimportante qualquer pregado no céu que não via mais.

Mas a poesia jamais caduca, Amauta sabe: um silêncio desses não pode ser tão invulnerável, porque nem mesmo o passado é tão irrevogável assim...

Entre um casual desejo e o vazio do esquecimento de não-dizer, viu que não estava aprisionado num labirinto infinito, mas diante de um Espelho, o Clérigo de Vidro, que fazia da serenidade sua espada, exortando do mundo ao redor tudo aquilo que não é.

Tinha o olhar e a voz feitos de uma implacável verdade, como qualquer verdade deve ser, eterna e irredutível.

A única verdade que Amauta trazia dentro de si era Açucena. E foi por causa dela que pode enfrentar aquele colosso do silêncio.

Porque o espelho, na sua língua árida e tão corajosa de dizer verdades, em todo esplendor do seu sacerdócio, dialeto estertor de certezas e asperezas, é apenas um profeta feito de areia e esquecimento. No seu Evangelho sem tempo ou palavras, esquecer é vingar e perdoar.

Mas nunca saberá qual falácia é maior: viver ou morrer.

terça-feira, 16 de março de 2010

Teogonia XXIII

Da anatomia de um espelho


Reflete, repete
e repete e reflete.

E faz verso
no inverso
do reverso
do mundo
que suplica.

Duplica, duplica!

A tudo que olha
reverbera. Nasce
outra vez mais
um mundo que gera
do teu olhar sagaz!

Copia, recria
e encarcera
a anatomia
do espaço
que nem liga
de se curvar
ante teu jugo
de fera.

Haveria fuga, limite?

Não! Ninguém
escapará de ti
um dia.

Nem mesmo a agonia
dessa pequena elegia.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Teogonia XXII

Da forma que a agonia tomou a saudade e ficou envergonhada quando viu que saudade que foi morar no longe querido era feita de tanto carinho.

Parecia frio, o peito vazio
procurando em algum lugar
paz qualquer que fosse.
De tudo que quero mais,
só me vale o que você faz.
Mas não encontro, não encontro.

Perderam-se ali? Nos jogos
que as luzes faziam
naquele ninho que você fez
que era o meu abraço?
Não encontro, não sei onde,
e não encontro!

Nem prestavas atenção
e eu já era também paisagem.
Esqueço do mundo,
me sorvi nele.
As palavras que não encontro:
me roubaram? Cuidado, cuidado.
Estão lá, nos olhos dela,
tal como a estrelas
que a luz mundo foram roubar.

Será que as encontro
vagando pela madrugada?
Em algum suspiro de namorada,
sonhando sob a luz da lua,
esperando o telefone tocar?
Essa mesma luz, roubada.
Do olhar da moça
que se aninha e poetinha diz
o que só cabe
ao seu nome:
fica, fica!
Ainda não encontro, não encontro.

De quantas agonias devem caber numa saudade?

Vasculho a mente, debulho palavras
que caem de suas bagas
pelo vento da madrugada
da moça enamorada
que eu queria pra mim.
E eu não encontro, nem assim.

É o fardo do lunfardo, Bernardo!
Êxtase, agonia, a dúvida
de que chegue logo
o outro dia.
Olhos em fornalha,
e de onde desce a lágrima
escura, quase inválida
de um Quixote vencido,
prostrado de saudade.

Não encontro, é verdade!
Das bagas
as palavras se esvaíram,
singrando por aí,
no vento úmido e morno
e azul marinho da madrugada.
Saudade não terá mais fim?
A reposta não encontro!

Espera, espera!
Umazinha ficou presa
no orvalho que do teu nome desce
– e digo pra ele rimar: fica!

Essa palavra tinha um gosto de sagrado.

O vento trouxe um cheiro de mirra,
quase o mesmo cheiro de flor
que desceu do céu,
quando era tanto o carinho
que fez do abraço ninho
e que se agarrou insistentemente
na saudade do poetinha.

É verdade, é verdade!
E foi quando soube
que aquele cheiro bom de flor
vinha do mesmo carinho
da moça do ninho.

Será que pude amar tanto só o que vem sua mão assim?